Segunda-feira, 8 de Junho de 2009
VIDAS DESTRUÍDAS, ALMAS SEM VIDA

CRÓNICAS DA GUERRA

VIDAS DESTRUÍDAS, ALMAS SEM VIDA

Desta vez fomos até à Freguesia da Ribeirinha da Ribeira Grande, conversar com o camarada Manuel Pedro da Silva Medeiros, (barbeiro), que nasceu na R. Grande.

Depois de tirar a 4ª. classe, trabalhou na lavoura, até ser chamado para o serviço militar obrigatório, sendo incorporado no B.I.I Nº.17 em Angra do Heroísmo em 17 de Junho de 1972, onde tirou a recruta e especialidade.

Algum tempo depois, foi mobilizado para Angola, tirando o IAO, em Setúbal. De referir que o Manuel revela algum esquecimento sobre as datas, nomeadamente de partida, chegada e acontecimentos importantes, pelo que não é possível concretizar datas.

Chegado a Angola, já em 1973 e depois de quinze dias no Grafanil, foi destacado para o Norte de Angola, zona de Lufico, onde permaneceu até depois do 25-04-74.

Durante a comissão foram várias as situações complicadas, com ataques e emboscadas principalmente quando iam buscar água aos rios, com o terreno e o próprio rio minados.

No entanto, o momento que marcou da vida do Manuel, para sempre, aconteceu nos primeiros dias de Agosto de 73: “Íamos numa patrulha a caminho do Lepal quando uma mina, anti-carro, destruiu por completo a nossa viatura, um UNIMOG. Eu fui projectado com violência contra uma árvore e fiquei todo partido com várias fracturas no peito, nas costas, nos ombros e com muitos estilhaços, no corpo”.

Nesta explosão, morreu um soldado e ficaram mais quatro feridos além do Manuel, um dos quais o Alferes comandante do Pelotão. Manuel foi evacuado, de avião, para o Hospital Militar de Luanda, estando aí internado mais de dois meses

Mesmo com muitas limitações físicas, foi mandado de regresso para o aquartelamento, onde permaneceu até depois do 25 de Abril, altura em que foram obrigados a entregar o quartel e regressar a Luanda. Aqui Manuel não tem dúvidas em afirmar: “Foi em Luanda, no Verão de 1974, que assisti aos piores momentos de violência, com actos de vandalismo e de atrocidades, com pessoas decapitadas e uma autêntica chacina feita pelos, ditos, movimentos de libertação”.

Regressou em Dezembro de 1974, continuando com muitos problema físicos. Ao fim de três anos e como continuava muito doente, requereu uma junta médica. Foi à junta a Lisboa, onde permaneceu três meses em tratamento, melhorando bastante, sendo-lhe atribuída uma incapacidade e consequentemente uma pensão de invalidez pelos danos sofridos em campanha, mas continuou uma longa recuperação, mesmo em casa.

No entanto, Manuel casou e deste casamento vieram cinco filhos, começou também a trabalhar numa fábrica de lacticínios e passou a fazer uma vida “normal”.

Porem, com a idade, os problemas físicos voltaram a agravar-se, com dores nos ossos em toda a zona atingida no acidente, o frio e a humidade são os principais inimigos.

Quanto aos momentos mais difíceis, Manuel destaca: “Para além do acidente em que fui ferido, foram as despedidas da família e da minha noiva, foi muito complicado e já mais esquecerei, mas a chegada também não foi fácil dado os problemas físicos e, principalmente, o complexo que tinha devido às condições com que regressava devido ao acidente. Foi muito duro, mas consegui sobreviver”.

Manuel regressou, também, com problemas psicológicos, “… eu não conseguia dormir e quando dormia um pouco acordava aos gritos, qualquer roído mais forte me perturbava, estava sempre numa agitação…”, e não tem dúvidas que, foi graças ao apoio da família, em especial da esposa, que conseguiu recuperar, diz mesmo com alguma emoção. “Ela, (esposa), é que têm sido a grande vítima da guerra”.

Não posso deixar de referir os magníficos trabalhos, de bordados, feitos pela esposa do Manuel. Embora não perceba nada do assunto, são dignos de serem vistos.

Obrigado ao Manuel e à esposa, pela forma simpática, como nos receberam em sua casa. Um abraço.

 

P.S. – No próximo artigo, vamos conversar com um Veterano de Guerra, que perdeu as duas pernas e dois dedos da mão esquerda em combatente na Guiné em 16 -12-70.

A 26 de Dezembro de 2008, Tiago, teve um AVC e ficou paralisado do lado esquerdo e por isso está imobilizado numa cadeira de rodas emprestada. Como as ruas da freguesia, a Salga, são muito inclinadas não se pode deslocar, uma vez que não tem acção na mão atingida e a esposa, tem problemas nos braços, não o consegue transportar.

Segundo o relatório médico, Tiago necessita de uma cadeira de rodas eléctrica para se poder deslocar. Como deficiente das Forças Armadas, deslocou-se à Zona Militar dos Açores, em S. Gonçalo, para requerer a atribuição de uma cadeira, mas a resposta, de um subalterno, foi que não tinha direito, porque o AVC nada tinha a ver com a sua deficiência. Todavia, aqui colocam-se duas questões:

1º. Do alto da minha ignorância, creio que nem este senhor, nem ninguém, pode garantir que o AVC, não está relacionado com o brutal acidente de que foi vítima;

2º. Ainda, fruto da minha ignorância, julgava que situações destas eram decididas pelas chefias, ou até talvez mesmo, por Oficiais Superiores, em postos de comando;

3º. Não tenho dúvida, que se o Tiago tivesse as duas pernas, de certo, se movimentaria como muitos outros o fazem depois de terem AVCs.

No entanto, Tiago preencheu os documentos necessários, mas passados mais de dois meses, continua à espera de uma resposta.

 



publicado por LFF às 17:03
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