Domingo, 21 de Junho de 2009
VIDAS DESTRUÍDAS ALMAS SEM VIDA

CRÓNICAS DA GUERRA

VIDAS DESTRUÍDAS ALMAS SEM VIDA

Hoje, á a vez de transcrever a conversa que tivemos, com o Manuel Alegre, em casa do amigo Tiago, na Salga, e que têm uma história comum.

Manuel Francisco Soares Alegre nasceu a 28 de Julho de 1948 na freguesia de S. Cruz da Lagoa. Depois de tirar a 4ª. classe, Alegre trabalhou na construção civil com o pai até ser chamado para o serviço militar obrigatório.

Apresentou-se no B.I. Nº.17 em Angra, no dia 29 de Outubro de 1969, onde tirou a recruta, mas por motivo de saúde, só tirou a especialidade na primeira incorporação de 1970, juntamente com o Tiago e o Moisés.

O percurso do Alegre, é idêntico ao do Tiago até ao dia do acidente, quando ainda não tinham percorrido mais de 1km e foram atingidos brutalmente por uma granada.

Alegre, também foi gravemente atingido. “Fiquei com a perna esquerda desfeita, com dois grandes cortes no abdómen e com muitos estilhaços, alguns dos quais ainda hoje «guardo» no corpo. Primeiro pensei que tinha ficado sem a perna, mas momentos depois, tive noção dos ferimentos e também apercebi-me que, havia outros colegas em pior estado, principalmente quando ouvi, no meio daquele inferno, o Tiago aos gritos para eu o matar que estava desgraçado. Ainda hoje ouço aqueles gritos, nunca mais poderei esquecer, foram momentos terríveis”.

Horas depois foi evacuado, de avião, para o Hospital em Bissau, sendo operado de imediato ao abdómen para retirar os estilhaços.

Durante os dois meses em que esteve neste Hospital, teve que ser operado para fazer a reconstituição da perna e, só depois, foi operado ao osso que estava desfeito.

Um mês após esta operação, foi transferido para Lisboa para o anexo de Campolide, onde esteve mais de um ano, acamado, sem que a perna curasse.

“A minha sorte foi encontrar neste Hospital, o médico que me operou em Bissau e que ficou admirado de ainda estar ali, depois de analisar a situação, chegou à conclusão que eu era alérgico às placas e parafusos que tinham colocado e que tinha de as tirar. O facto é que logo que as tiraram comecei a curar. Devo a este médico não ter ficado sem a perna, ele foi a minha salvação”. Alegre, só voltou para casa em 22 de Julho de 1972, ou seja, um ano e sete meses depois e com uma incapacidade de 63,19%.

Quanto a situações mais marcantes para além do brutal acidente de que foi vítima, Alegre não tem dúvidas. “Foi a despedida da minha noiva e da minha família, marcou-me muito e foi muito emocionante e quando regressei, também, não foi fácil porque julgavam que vinha pior, ainda hoje sofro com estas duas situações que, não mais, esquecerei”.

Como é óbvio, regressou com traumas psicológicos, mas ao longo do tempo foi tentando ultrapassar, embora com a ajuda de medicação.

Depois de regressar, e, ao fim de algum tempo, começou a refazer a sua vida, voltou à construção civil na empresa do pai, casou e teve três filhos, passando a fazer uma vida dentro da normalidade possível.

É impressionante a amizade e a solidariedade que, mais de trinta e oito, (38), anos depois, continua a existir entre estes três Veteranos de Guerra, mais um quarto, Braga Melo, de Santa Maria, mas que neste momento se encontra no estrangeiro.

É enternecedor e mesmo impressionante, que mesmo vivendo longe uns dos outros, Tiago na Salga, Alegre em Santa Cruz da Lagoa, Moisés na Várzea e o Braga Melo em Santa Maria, sempre mantiveram, ao longo dos anos, contactos e encontros regulares, juntando-se em festas, piqueniques, churrascadas, etc, de tal forma que até as esposas e os filhos perpetuam esta amizade.

A prova provada desta ligação e que muito me sensibilizou, foi no dia da procissão do Senhor Santo Cristo dos Milagres, enquanto esperávamos pela nossa vez, convidei o Alegre e o Moisés para me contarem as histórias das suas comissões, nem sabia que tinham estado juntos, ao que logo se disponibilizaram, mas de imediato me pediram, os dois, mais ou menos isto: “Antes de nos entrevistar podia era fazer-nos um favor, temos um colega que perdeu as duas pernas, na Guiné, juntamente com nós e que teve um AVC em Dezembro passado e está imobilizado numa cadeira de rodas sem se poder movimentar e a tropa parece que não lhe quer dar uma cadeira de rodas eléctrica, se falasse nisso no jornal talvez ajudasse alguma coisa”. Não hesitei, um segundo, e logo combinamos ir à Salga conversar com o camarada Tiago. É bem verdade que no meio das atrocidades da guerra, também, existem situações que relevam a capacidade humana para a amizade e para ajudar os que necessitam. Bem hajam.

Um grande abraço ao Alegre pela forma espontânea como se disponibilizou para nos contar a sua história na Guiné. Obrigado.

 

P.S. – Acabei de tomar conhecimento que o assunto da cadeira de rodas eléctrica do camarada/amigo Tiago, tinha sido despachado favoravelmente.

É o momento que me deixou mais feliz, desde que escrevo estes artigos, não por ter a presunção de pensar que foi por causa do que escrevi, sobre o assunto, que este foi resolvido, mas sim por ter sido feita justiça e principalmente por ver que, nas Forças Armadas deste País, ainda há quem olhe para os deficientes das F.A. com olhos de ver e que o assunto foi resolvido pelas instâncias competentes.

Embora esteja muito satisfeito, não posso deixar de lançar um apelo às Chefias das Forças Armadas, para que os militares no activo, sejam sensibilizados, para quando atendem Veteranos de Guerra, em especial os deficientes das F.A., o façam com a dignidade e o respeito que estes merecem, porque estes HOMENS, na flor da idade, deixaram partes do seu corpo, do seu sangue, dos seus sonhos e até das suas vidas, enterrados nos matos de África ao serviço da sua Pátria que é Portugal.

Meu caro camarada/amigo Tiago, de uma coisa tenho a certeza, podes-te gabar que trens no Moisés e no Alegre dois grandes e verdadeiros amigos, daqueles que todos nós gostaríamos de ter. Sei que sabes isso, mas nunca é demais exaltar Homens destes que bem o merecem. Um grande, sincero e emocionante abraço para os três.

 



publicado por LFF às 19:47
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