Domingo, 28 de Junho de 2009
VIDAS DESTRUÍDAS ALMAS SEM VIDA

CRÓNICAS DA GUERRA

VIDAS DESTRUÍDAS ALMAS SEM VIDA

Por: Lino de Freitas Fraga

A finalizar as conversas que tivemos, na Salga, com os três Veteranos de Guerra da Guiné, hoje é vez do Moisés.

Moisés Pereira Luz nasceu a 30 de Março de 1949 na freguesia dos Ginetes. Tirou a 4ª. classe e depois começou a trabalhar, na lavoura, com o pai, até ser chamado para o serviço militar obrigatório.

Foi incorporado no B.I. Nº.17 em Angra, no dia 2 de Janeiro de 1970, onde tirou a recruta e a especialidade.

Até ao dia do acidente toda a história é igual à do Tiago e do Alegre, pelo que vamos passar à frente.

Como anteriormente foi dito, no terceiro dia, saíram fazer o primeiro patrulhamento, mas ainda não tinham percorrido mais de 1km, quando foram atingidos por uma granada de bazuca, Moisés também foi severamente “castigado” por esta. “Eu fiquei com as duas pernas e o braço direito partidos e com vários estilhaços no corpo. Nos primeiros momentos, fiquei confuso, pensei que tinha ficado sem as pernas, até porque não me podia mover porque o colega Braga Melo, de Santa Maria, que foi atingido na cabeça, ficou caído em cima de mim inconsciente, ficando em coma bastante tempo. Naquele momento, pensei que a vida tinha acabado ali, foi um dia muito difícil, não só para nós feridos, mas também para todo o pelotão, ficaram todos muito abalados”.

Horas depois foi evacuado, de avião, para o Hospital em Bissau, onde foi submetido a uma cirurgia.

Sete semanas depois de operado foi transferido para o anexo de Campolide, onde esteve internado vinte e um mês, principalmente por causa do braço ao qual foi submetido a mais duas cirurgias, a ultima das quais no Hospital da Terra Chã, pelo famoso e sempre lembrado Dr. Garrett, que lhe garantiu que se tinha sido logo no inicio tinha ficado completamente bom, uma vez que os estilhaços que lhe partiram o braço, atingiram os tendões, acabando por ficar com a mão imobilizada, sendo-lhe atribuída uma invalidez de 60,27%.

Quando aos momentos mais marcantes de toda a sua passagem pela tropa, Moisés pára por instantes e a voz embarga, vemos as lágrimas nos seus olhos e responde. “Foi as despedidas de meus pais e irmãs, mas quando minha irmã me foi visitar a Lisboa, também fiquei muito emocionado”.

Moisés, só ao fim de vinte e um mês é que regressou a casa e é essa chegada que também o marca definitivamente. “Quando cheguei ao aeroporto estavam à minha espera minha mãe e as minhas irmãs, não foi fácil, mas como minha irmã já me tinha visto e eu vinha a andar bem, já não foi tão violento para elas. Mas, meu pai que, por motivos de saúde, ficou na freguesia, quando me vi foi muito, muito duro, só quem passou é que pode compreender”. Moisés pára para tentar recompor-se, diga-se que dos três amigos, é o que se emociona com mais facilidade, instantes depois recomeça: Mas, o que mais me chocou e emocionou, foi, estava eu ainda no Hospital em Lisboa, quando soube que minha mãe tinha feito uma promessa, por minha causa, a Santo Cristo dos Milagres, de dar uma volta de joelhos ao, a voz volta a embargar ao Moisés e temos que parar uns momentos, ao Campo de São Francisco e que a estava cumprindo, comoveu-me muito. Ainda hoje não consigo ver as pessoas a pagarem aquelas promessas.

Moisés, foi uma pessoa com muita força, que não se deixou abater pela fatalidade. “Eu depois de ferido, com o braço direito imobilizado, só pedi para me escreverem duas cartas, depois adaptei-me e comecei a escrever com a mão esquerda, não foi fácil mas consegui”.

Regressou, como é natural, com traumas. “Eu dormia muito mal e quando dormia acordava em sobressalto, qualquer barulho estranho me perturbava, principalmente o rebentamento das roqueiras que me deixavam em pânico, ainda hoje me incomodam”.

O que Moisés nunca senti, foi complexos de inferioridade, como trabalhava na lavoura antes de ir para o serviço militar, sabia que não podia continuar e com o apoio do pai, a primeira coisa que fez foi mostrar que era capaz e tirar carta de condução. Depois consegui arranjar um trabalho de cobrador de uma empresa, porque era um serviço que podia fazer perfeitamente. Casou e teve dois filhos, passando a fazer uma vida normal.

Mas, Moisés não tem dúvidas que recuperou psicologicamente, graças ao apoio da família, pais irmãs e depois da esposa e dos filhos.

Agradeço ao Moisés, não só, por se ter disponibilizado para nos contar a história da sua passagem pela guerra, mas também, por nos ter levado junto do nosso amigo Tiago para podermos transcrever a situação complicada em que se encontra.

 

Foi uma atitude nobre, que muito me sensibilizou e só exequível por homens e amigos com um H e A muito, muito grandes, como são o Moisés e o Alegre. O meu muito obrigado e já mais esquecerei a vossa atitude.



publicado por LFF às 20:10
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